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Bolada há 50 anos encurtou carreira e mudou vida de Tostão

Atingido por beque do Corinthians, jogador lesionou olho e teve de parar aos 26

Era um dia chuvoso e o campo estava encharcado, como recorda Tostão, 72, que diz se lembrar “perfeitamente” daquele momento. Seria mesmo difícil que ele se esquecesse dos detalhes de 24 de setembro de 1969, há 50 anos, data que acabou mudando os rumos de sua carreira e os de sua vida.

No gramado molhado do Pacaembu, em São Paulo, o ponta de lança do Cruzeiro escorregou, caiu e perdeu o controle da bola. Ditão, zagueiro do Corinthiansconhecido pelo estilo viril, tentou afastar o perigo com um chutão. A bola acertou o olho esquerdo do adversário.

“Ele foi rebater, porque tinha a prática de rebater. Pegou de baixo para cima e me acertou. Devia ter alguma pedrinha na bola”, disse Tostão, para quem a história teria sido diferente com um beque de maior categoria no caminho. “Foi uma coisa tão rápida. Acho que ele não percebeu que eu estava caído. Fiquei tonto, meio confuso.”

Substituído na partida, vencida pelo Corinthians por 2 a 0, o mineiro começou horas depois “a ver algumas coisas, uns pontos escuros”. No dia seguinte, já em Belo Horizonte, passou por exames que apontaram o descolamento da retina e a necessidade de cirurgia.

Naquele momento, aos 22 anos, Tostão já havia se estabelecido como uma peça importante da seleção brasileira. Houve comoção em torno da lesão, a menos de um ano da Copa do Mundo do México, e um acompanhamento diário do noticiário sobre a evolução do quadro clínico do atleta.

Folha de 4 de outubro, que relatava a viagem aos Estados Unidos para a operação, narrava também a ida de Frederico Rumem Junior à sede da CBD, atual CBF, para oferecer uma de suas vistas ao jogador. “Penalizado com o acidente”, dizia o jornal, o torcedor carioca, morador do bairro de Padre Miguel, colocou-se “às ordens” e deixou até seu endereço: “estrada do Realengo, 550”.

A doação não foi necessária. A cirurgia se realizou naquela semana, no Hospital Metodista, em Houston, e pôde ser considerada um sucesso. O médico brasileiro Roberto Abdalla Moura, que conduziu o procedimento chefiado pela norte-americana Alice McPherson, temia apenas que o atacante não voltasse a cabecear como antes, mas aprovou os primeiros passos da recuperação –dados com o paciente de olhos tapados, ouvindo discos de Roberto Carlos, Chico Buarque, Gal Costa e Gilberto Gil.

Um deslocamento de retina atrapalhou Tostão e encurtou sua carreira como jogador. Foto: reprodução.

Aguardado na seleção, o cruzeirense cumpriu os protocolos para o retorno e, após meio ano parado, juntou-se aos companheiros, que já se preparavam para o Mundial havia um mês. Titular com João Saldanha, ele precisou convencer Zagallo, que assumira o comando do time em março, de que merecia uma vaga entre os 11.

Apesar da desconfiança inicial do treinador e dos problemas físicos decorrentes do tempo de inatividade, o mineiro acabou ganhando a vaga de centroavante. Aí, houve o susto. Um sangramento na membrana conjuntiva deixou a comissão técnica e os companheiros preocupados. Gérson, nas palavras de Tostão, ficou “muito emotivo”.

O médico Roberto Moura, então, partiu de Houston a Guanajuato, no México, onde estava concentrada a equipe verde-amarela. Foram mais de mil quilômetros de carro para avaliar o atleta e passar a todos a boa notícia: a hemorragia era superficial, a retina estava intacta, e os treinos poderiam ser retomados normalmente no dia seguinte.

“Houve uma apreensão muito grande do pessoal da CBD, da comissão técnica. Era natural. Eu notei que havia uma inquietação. Conversando informalmente, cheguei a falar: ‘Se acharem que estão sem confiança, que seria arriscado, vou compreender [o corte]’. Mas falaram não. E o Roberto Moura foi muito claro, muito direto, não deixou nenhuma dúvida de que eu poderia jogar. Então, falaram: ‘Você continua, vai treinar amanhã’”, relatou o jogador.

Naquele momento, como descreveu em livro publicado em 1997, Tostão teve “a certeza mística de que tudo daria certo e de que o Brasil seria campeão”. Quando essa convicção se comprovou acertada, ele não esqueceu o esforço do médico e lhe entregou a medalha do tri. Moura, hoje com 84 anos, ainda exerce a medicina em Belo Horizonte e mantém contato com o ex-jogador.

Roberto Abdalla Moura exibe 2002 a medalha que ganhou de Tostão. Foto: Kátia Lombardi

No caminho para a conquista, o atacante se tornou parte daquele que é tido como um dos maiores times de futebol de todos os tempos, com uma contribuição que vai além dos dois gols marcados contra o Peru nas quartas de final. Mais famosa do que esses gols é a jogada que definiu a vitória por 1 a 0 sobre a Inglaterra, na primeira fase, na qual ele encara três marcadores pela esquerda antes de cruzar para Pelé, que rola para Jairzinho concluir.

Ao fim daquela Copa, o camisa 9 do Brasil mostrava a saúde de seus olhos, chorando antes mesmo do término da vitória por 4 a 1 sobre a Itália. “O mundo simbólico representado pela palavra é muito pobre para representar um sentimento tão rico quanto o daquele momento. São esses instantes que ficam marcados para sempre na nossa memória”, escreveu.

Esse instante eterno ajudou Tostão a se conformar quando o problema no olho reapareceu, em 1973. Nova cirurgia foi realizada nos Estados Unidos, mas, após a segunda operação, o então jogador do Vasco ouviu que não poderia dar sequência à carreira, encerrada aos 26 anos.

“No dia seguinte, eu estava na porta de um curso de preparação para o vestibular. Já tinham me falado que a chance de eu voltar a jogar era pequena. Então, eu já estava me preparando”, recordou o ex-atleta, que se tornou médico e construiu uma vida longe dos gramados até se reaproximar deles, nos anos 1990, como comentarista de futebol. Hoje, ele é colunista da Folha.

“Fiquei chateado. Não queria parar, mas, para mim, foi um renascimento, porque tive a chance de ter outra vida. Se eu tivesse parado de jogar com trinta e poucos anos, não teria tido a chance de estudar, de entrar na faculdade, que era um sonho meu. Não teria ânimo para começar a construir isso, ter outra atividade, outra vida. Naquele momento, foi ruim. Mas, do ponto de vista da minha existência, tive uma oportunidade que não teria recebido se tivesse parado alguns anos depois”, concluiu Tostão.

Fonte: Folha de S. Paulo


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